Batata e Poesia.

Peguei a sacola de pano e segui meu rumo até o supermercado. Enquanto escolhia seletivamente as batatas, fui interrompida por uma garota.
⁃ Por que tanta restrição?
⁃ O que? Com as batatas?
⁃ Sim.
Eu me virei e olhei pra ela. Cabelos marrons, traços de normalidade e uma altura um pouco acima da média.
⁃ Porque elas vão se tornar minhas batatas.
⁃ Entendo. – Ela rodeou a sessão com o olhar. – Mas você não faz isso com pessoas, faz?
⁃ Como chegamos nessa parte? – Eu ri, colocando a última batata.
⁃ Na verdade, eu cheguei. Alguém partiu meu coração.
⁃ Por causa de batatas ou preferências intensamente seletivas?
⁃ Que antes fossem batatas. Ele não conseguiu lidar com meus defeitos. Talvez seja minha culpa. Eu levo tudo a sério demais.
⁃ Pessoas não são batatas pra descartar por causa de falhas.
⁃ É… Isso é terrível. – Ela direcionou o olhar para o chão.
⁃ Viu? Você levou a sério. – Levantei a sobrancelha em um tom de acusação.
⁃ Mas foi um conselho sério.
⁃ Se tem "batatas" no meio do conselho, não creio que ele seja totalmente sério. – Disse enquanto agarrava alguns pacotes de biscoito e colocava na sacola de pano.
⁃ A vida não é feita só de poesia.
⁃ Errado. Já disse isso pra ele? Talvez o garoto te largou com argumentos convincentes.
⁃ Tanto faz. Eu só quero esquecer ele.
⁃ Esquecer? Você se envolve com pessoas pra depois esquecer tudo? Me poupe, a modernidade está passando dos limites.
⁃ Modernidade?
⁃ De novo! Levou a sério.
⁃ Humpf!
⁃ Se você vai se envolver com alguém pra depois esquecer, permaneça em casa e leia um livro. Acho inaceitável quem não compreende que a experiência é exatamente sobre aprender com o que já aconteceu e não deletar tudo da memória.
⁃ Agora você levou a discussão a sério.
⁃ Tanto faz. Eu já estou indo embora.
⁃ Ei, se pra você aprender é tão importante, o que você vai fazer com essa experiência?
⁃ Não sei… Talvez uma crônica?

[Schizophrénie]

Conhecer ele foi normal. Nem sempre os encontros são extraordinários. A literatura nos gera a errônea impressão que a vida pode ser fantástica a todo instante, mas não existe algo como isso. A vida não é nada essencialmente, mas pensar faz dela alguma coisa. É… talvez eu esteja precipitada. Talvez a vida seja incrível a todo instante se você quiser que ela seja. Bom. É preciso de muita força de vontade, ou algo extra-extraordinário. Infelizmente eu nunca poderei, na minha passageira vida, experimentar a sensação de infinitude que a fantasticidade proporciona. Não existe nada de especial em mim, minha existência marca apenas mais uma das 7,5 bilhões de pessoas no mundo, desesperadas pela vida e por algum tipo de crescimento. Econômico, pelo jeito. Enfim, voltando ao meu ponto. Conhecer ele não foi nada demais. Quer dizer, agora que pensei melhor, pode ter sido a experiência mais esquisita da minha vida, mas é injusto classificar isso desse jeito somente agora, que me encontro em direção ao desfecho. Não, não feche o livro! Ou o web-viewer ou qualquer resquício de modernidade usado pra alcançar esse texto. Isso não é uma história de amor. Tudo aqui compreende um nível diferenciado de relações interpessoais. Apesar da citação de um sentimento ordinário, tudo aqui será profundo; mas meu caro, a profundidade da comunicação depende também da segunda subjetividade que as palavras alcançam, portanto, lanço esse desafio: Sejam profundos. Por fim, acho que devemos falar um pouco sobre antes dele entrar na minha vida. O início começou logo após do fim, por favor, não me digam que isso é óbvio, nós simplesmente somos viciados em ciclos. Eu encarava meu enorme cabelo preto no espelho, contemplando o próprio rastro da minha escuridão no meu reflexo turvo. Era a noite que antecipava o fim do primeiro mês no novo colégio que eu ingressara, e que ainda não tinha sido engolido pela minha garganta social estreita. O sentimento pungente que rasgava o meu peito era quase que insuportável. As lágrimas não conseguiam sequer escorrer pelo meu rosto repleto de saudade. De quê? Bom, não vai ser difícil explicar: era meu luto. Sim, exatamente, alguém morreu. E novamente falando sobre impressões erradas: Achamos que a vida é forte, mas ela é surpreendente frágil. "Ele não resistiu ao acidente… Você sabe o que isso quer dizer. Acho que ele se foi". Essas palavras se montavam para declarar o óbito do menino que eu amava. Enfim, voltando ao meu reflexo no espelho, a dor que eu sentia era energética e vibrava como uma onda, tocando essa aguda sinfonia de sofrimento. E foi ali que a autodestruição começou a ser um modo de dissipar essa dor. Agarrei a tesoura. Lentamente vi as grossas mechas de cabelo tocarem o chão. Se eu não era capaz de chorar, algo em mim choraria. O reflexo no espelho não era mais meu, mas sim do que tinha sobrado de mim. Naquele momento me era incompreensível o clico da vida. A morte é um estágio natural da existência, por isso, deve ser aceitada. Entretanto, a aceitação da morte enquanto processo natural é diferente da não relutância em relação a ela. Fui até o jardim e deitei no gramado, contemplando a escuridão deixada pelo sol. Pensando em algum tipo de lógica que a vida poderia se prender durante o seu tão complexo planejamento; há quem diga que esse raciocínio não existe, e que a vida se determina inconscientemente. Ainda assim, outros creem na onipotência de um criador maior que cogita e reserva o espaço de casa um dentro da existência. Existência. Agora sim utilizamos um termo que me interessava naquele momento. A existência da vida na terra se da há grosseiramente 3,8 bilhões de anos, enquanto o existencialismo, sorrateiramente, se desenvolveu no século XIX, com ilustres filósofos como Kierkegaard, Heidegger e Jean Paul Sartre. É importante refletir sobre a existência enquanto se existe. Nada no mundo é verdadeiramente verdade, então não se preocupem em formar uma opinião definitiva. Tudo é temporário. Hoje, acredito fortemente na visão sartreana sobre a liberdade incondicional modelando a contínua vivência, mas amanhã, nunca saberemos. Sartre me ajudou muito a refletir sobre o que eu havia feito até então. Tudo o que ocupava minha mente era a minha autonomia moral e existencial e as responsabilidades irredutíveis que elas me geraram, as quais tive que lidar intensamente ao longo dos anos seguintes, juntamente com as escolhas, pois me causaram bastantes danos. O jardim da casa é grande e recheado, graças as longas horas de dedicação da minha mãe ao jardim. Quase ao centro, tem um caminho de concreto que leva até o portão, e um pouco atras das árvores rasteiras existe um gramado com várias rosas plantadas, com cercas brancas e pedras, meu esconderijo. Minha presença era confirmada toda vez que eu me sentia estranha. Esse sentimento que me assombrou não tem um nome, pelo menos não até agora, dado em razão que eu o nomeei mais tarde. Talvez seja difícil entender algo que nunca foi sentido, nós temos essa certa deficiência em relação às inteligências emocionais. Sobretudo, tentarei uma breve explicação de como era: Imagine-se em uma piscina gigante, as margens são inalcançáveis, não importando o quanto você nade. A luz ainda alcança o seu vulto sendo puxado pela água, mas logo você estará imergido na propagação completamente turva da luz. E ela se distanciara cada segundo mais. Você estende a mão, mas já é distante demais da superfície. E não se pode fazer mais nada além de agonizar calmamente, enquanto se afunda. Adormeci sobre a grama do quintal, imersa na minha pequena realidade, no meu próprio buraco existencial e acordei com ele sorrindo para mim. Ainda um pouco desamparada, a luz do sol nascendo me incentivou a me arrumar para o colégio. Na minha cabeça começaram uma série de argumentos para que eu desistisse e fosse correndo pra minha cama. Mas ainda com forças, eu levantei e fui escovar os dentes. Olhei para a janela, tentando evitar o meu reflexo no espelho. Cansei de mim. Troquei de roupa e fui pro colégio. A interação social era tão desconfortável quanto a estranha sensação de que algo estava faltando, mas eu sabia exatamente o que era. Nenhum deles teve a coragem de falar comigo sobre o que aconteceu, nenhum abraço, nenhum consolo. O ápice de algum tipo de gesto foi um bilhete deixado em cima da minha carteira. "Meus pêsames, nós sabíamos quanto o Pedro era importante pra você". Entretanto, por mais que pareça, isso não é uma reclamação, é necessário respeitar o tempo de cada um, principalmente quando se trata sobre a morte. Minha reação foi uma das piores. Rasguei o papel em pedaços. Não conseguia aceitar que eu nunca poderia vê-lo, ter seu boa noite antes de dormir ou reclamar das mãos geladas de setembro tocando o meu rosto. Mas as lágrimas ainda travavam, receosas de partir. Depois da escola fui até as quadras. Sentei na arquibancada que ficava em frente a piscina olímpica. O ginásio do colégio era incrivelmente completo e espaçoso, decorado em sua grande maioria por coisas vermelhas e outras cores temáticas do colégio. A calmaria me lembrou de um dos momentos que tive com o Pedro, o nosso último, na verdade.
⁃ O universo não foi feito à medida do ser humano, mas tampouco lhe é adverso: é-lhe indiferente.
⁃ É uma das minhas frases preferidas.
⁃ Eu sei. Você sublinhou aqui. – Apontei no livro do Carl Sagan que ele tinha me emprestado há alguns dias.
Ele pulou na água e voltou a nadar. O pedro tinha os cabelos escuros, levemente encaracolados, olhos marrons e a mania de arrumar as madeixas de um jeito sexy. Ele se apoiou na bainha da piscina e puxou a toca, ajeitando o cabelo logo em seguida.
⁃ Nossa existência é só um detalhe. – Indaguei. Sentando em frente a ele na beira da piscina.
⁃ Nada "é" de fato. Tudo é feito de partes, mas cada parte é o todo dela, e assim o mundo se da sequência. – Ele disse colocando meu cabelo atrás da orelha.
⁃ Isso é tão você.
⁃ Eu tenho uma coisa pra te fal- Meu celular o interrompeu com um toque.
⁃ E eu preciso ir agora. – Juntei todas as minhas coisas na bolsa e me despedi – Conversamos amanhã depois da competição?
Ele assentiu com um sorriso e me observou andar até a saída. Esse dia antecipava a competição de natação interna do colégio, que ele, infelizmente, nunca pode comparecer. Chega a ser engraçado como as coisas parecem fazer algum tipo de sentido, como se o mundo se camuflasse sorrateiramente com uma intenção. Apesar da consciência de que nada é assim, muitos momentos me fizeram repensar essa certeza. Levantei da arquibancada, onde todas as memórias me cercavam e fui embora. A nuvem negra me perseguia em qualquer lugar que ia. Os pensamentos começaram a lotar minha cabeça, sugerindo uma série de coisas que eu deveria ter feito, milhões de maneiras de ter evitado que o Pedro se fosse, um bilhão de razões de que tudo isso é culpa minha, em como eu deveria ter escutado o que ele tinha pra me falar e principalmente o fato de que eu nunca vou saber as suas últimas palavras. Mas nenhuma lágrima teve a coragem de iniciar o percurso. Meses se passaram e tudo se repetia: Minha resistência de levantar da cama, minha vontade de desistir, insônia, falta de apetite. Quando tudo não parecia simplesmente intocável parecia pela metade. Não demorou muito para eu não ter nenhum lugar que eu me sentisse confortável, nem meus sonhos. Eu acordava várias vezes durante a noite, com o ar totalmente fora dos pulmões, como se eles fugissem da minha presença e assustada, eu fechava os olhos e tentava recuperar o fôlego. No ápice da minha experiência de quase-vida, eu já não existia no mesmo mundo. As sensações se transformaram totalmente, tudo começou a ser inóspito. A única coisa que ainda me fazia sentir viva era o vento noturno, gelado e seco. Em um domingo a noite meus pais insistiram em uma programação conjunta com uma velha amiga deles, a Dona Gloria. Contando com a minha impossibilidade de dizer "não!" pela relutante insistência materna, me vesti e fomos até lá. A amiga deles era uma mulher de meia idade, muito exótica. A casa dela tinha uma decoração bagunçada e lotada, com velas aromáticas e várias plantas penduradas, os móveis velhos iam de encontro com os quadros e pinturas de natureza morta. Junto aos gatos reais, esculturas. Na saída do elevador eu indaguei sobre meu casaco, tentando escapar das apresentações.
⁃ Mãe, vou buscar o casaco no carro.
⁃ Só não se atrase pra entrada. – Ela me estendeu as chaves.
Esperei até o momento em que eles entraram e cliquei no último botão do elevador. E parei no terraço, um pouco surpresa com a errônea posição dos botões. Acabei caminhando pelo chão de pedra, pois o céu rendado me atraiu até o parapeito do edifício, que agilmente escalei. Fechei os olhos. Eles dizem que o fim será em breve, mas talvez o fim seja agora. Subi e fiquei estática entre dois passos que decidiriam minha vida. Não sei exatamente quando os pensamentos que acabar com minha vida findariam meu sofrimento, mas a ideia pareceu aceitável naquele momento. Se nada de bom havia na existência, de nada ela importava. Me equilibrando na linha tênue da escolha. Não é nenhuma novidade que eu tenha perdido o equilíbrio e caído. Para trás.
⁃ Te peguei. -Alguém disse agarrando meus braços com toda a força.
⁃ Obrigada. – Balbuciei, ainda recuperando o equilíbrio.
⁃ Adorei seus sapatos.
Eu olhei para os meus pés e percebi que tinha colocado sapatos diferentes. Um preto e o outro limão, com um amarelo brilhante.
⁃ Obrigada, eu acho. De novo.
⁃ Desculpa. Ta tudo bem? Sei que deveria ter perguntado isso primeiro. Você não deveri-
⁃ Não, você foi perfeito. – Voltei a olhar o horizonte, escorada no parapeito.
Sei que vocês devem estar curiosos pra saber se ele era o "ele" que mencionei anteriormente. Enfim, ele tinha os cabelos dourados e os olhos claros, era um garoto comprido e magrelo. Vestia uma blusa social com mangas curtas marcante pelo azul marinho escuro com estrelinhas amarelas e uma jaqueta jeans.
⁃ Aqui, pega o meu casaco. – Ele disse entornando a jaqueta em volta de mim.
⁃ Você não precisa ser tão gentil.
⁃ Chama-se empatia. – Ele parou do meu lado e começou a admirar o céu comigo.
⁃ Acho que aqui é um dos meus lugares preferidos agora.
⁃ Eu sempre venho aqui pra escrever. Algumas vezes pra ajudar garotas com sapatos trocados que perdem o equilíbrio no parapeito. – Ele riu.
⁃ Faz tempo que eu não sinto nada de bom. – Ri da piada boba dele. – Pelo menos não até agora. O que você escreve?
⁃ Crônicas. Fazia poesias, mas agora eu só escrevo o porquê parei de fazer poesia.
⁃ E por que parou?
⁃ Porque eu virei a poesia. – Ele me encarou com um sorriso conclusivo.
⁃ Poetas são mesmo complicados como dizem. – Falei movendo o rosto em negação.
⁃ Acredite se quiser. Cada decisão minha é um verso e a métrica é sobre se as decisões sãos harmônicas e rimam. – Argumentou com as mãos estendidas em gestos explicativos.
⁃ Confesso que entendi. – Disse abafando meu sorriso.
⁃ E você quer sentir algo bom de novo? – Ele disse olhando pra mim.
⁃ Seria bom.
O garoto segurou meu rosto e fechou os olhos, se preparando para um beijo, vindo lentamente na minha direção. Pude sentir as bochechas do meu rosto corando, enquanto a minha resistência se negava a aparecer. E ele me deu um beijo. Na testa. Abri meus olhos como se estivesse acordando de um sonho confuso, diluindo as partes para encontrar algum sinal de lógica. Mas a face sorridente dele fez com que tudo sumisse de uma vez só. Sim, ele é "ele"!
⁃ Droga. Preciso ir. – Disse olhando o horário no celular que estava no bolso da minha saia.
⁃ Que horas são? Eu também preciso ir as 20h.
⁃ 21h30.
⁃ Então… Tchau?
⁃ Tchau.
Nós andamos até o elevador e nos desencontramos nos minutos que notamos os próximos minutos constrangedores. Chegando no nono andar, interrompi minha saída e segurei o elevador.
⁃ Foi bom te conhecer.
⁃ Esse é meu andar também.
⁃ Deixa eu adivinhar. Jantar de família? – Brinquei.
⁃ Na realidade, minha mãe fez um jantar pra uns velhos amigos.
⁃ Sério?
Toquei na porta e minha mãe abriu.
⁃ Quê demora. Onde você tava, menina?
⁃ Eu tava conversando com o- Olhei para trás e ele simplesmente não estava mais lá.
⁃ Entra, entra. – Ela me enxotou pra dentro.
Enquanto meus pais se divertiam com papos rodados e café expresso. Me distrai com um jogo de tabuleiro, movimentando as peças e as reorganizando. É estranho começar a sentir coisas boas depois que elas totalmente somem por um tempo. Ele foi uma luz no vazio da minha existência. Isso me lembra um pouco sobre um artigo que li, sobre a morte catastrófica de estrelas, as supernovas. Quando isso acontece, todo o hidrogênio é consumido e essa determinada estrela sofre um repentino aumento de brilho. A supernova é o começo da fase final de uma estrela. Mas não de todas. É preciso de uma quantidade de massa extraordinária para a formação de uma supernova. Quando isso de fato acontece, ela transforma o hélio em carbono através da fusão, e com uma estrela gigante como essa, a massa pode
fundir elementos mais pesados como o ferro. E partir do momento que o núcleo é fundido em ferro ele colapsa por causa de sua própria gravidade e causa um processo ainda mais tenebroso. A parte externa da estrela começa a ser projetada par o espaço. O núcleo, nesse momento, é tão denso que pesaria toneladas, e nele, os prótons e elétrons se fundem e formam a chamada estrela de nêutrons. E se a massa realmente existir em uma quantidade absurda, ao invés da estrela de nêutrons, forma-se um buraco negro. E bom, eu me tornei uma supernova ou um buraco negro? Fácil. Os meses passaram e cada vez mais eu encontrava ele. E só pra constar, o nome dele é Bernardo. Nós começamos a ser quase que inseparáveis. Não preciso dizer que nos apaixonamos né? Ele me acompanhava até a escola. Me esperava dormir. Estendia suas mãos até o meu pescoço toda vez que nos beijávamos. E algumas coisas na vida começaram a ser confortantes finalmente. Mas tudo que é bom dura pouco. Quando eu comecei a me sentir bem. Ele sumiu. Mesmo o tendo convidado para ir em uma exposição com antecedência. E meu último recurso foi procurar na casa da amiga dos meus pais, mãe dele.
⁃ Dona Glória, tudo bem?
⁃ Elisa? Entra, minha filha, você quer um chá?
⁃ Não, obrigada.
⁃ Eu estava terminando a minha última escultura. Pode entrar.
Ela me guiou até o quarto dela. Ele era recheado de bugigangas, quadros, enfeites, plantas e porta retratos. Em uma das estantes eu acabei vendo uma fotografia dela e do Bernardo. Segurei a foto e desdobrei a ponta.
⁃ Ele era tão energético.
⁃ Eu diria teimoso.
⁃ Você conheceu ele?
⁃ Estava procurando por ele na verdade.
⁃ Procurando pelo Bernardo?
⁃ Sim. Ele e eu íamos pra uma exposiçã-
⁃ Elisa.
⁃ Oi.
⁃ Já faz um ano que o Bernardo faleceu.
E as lágrimas escorreram pelo meu rosto, finalmente.

É difícil ser mais uma poetisa clichê do século XXI. Há quem diga que falar sobre sentimentos é feitio de escritores egoístas, que tem medo de atingir o mundo de outros indivíduos e ficam perambulando na reflexão do eu. É um verdadeiro desafio escrever sobre sentimentos, as pessoas não querem saber o que eu sinto, pouco as importa quem eu sou ou de onde vim, tendo isso em mente, o que sinto precisa ser o que elas sentem. O que tenho a dizer só é interessante se for sobre elas de algum jeito. Mas de certo modo eu entendo isso. Nós não somos ninguém, integramos uma mínima parte de um pseudo-ser que é controlado por um sistema vorazmente faminto. Falar sobre sentimentos é encontrar nos outras pessoas, algo como a gente, que apesar de tudo, ainda sente. É incrível como a nossa doutrinação para com tudo é tão intensa que há necessidade de se suprimir, enganar-se de tal forma, que chega a ser apassivador. Come-te a ti mesmo. Esqueça-te. A parede do sistema não precisa de um tijolo teimoso e desajeitado como você. Eles nos ensinam a crítica apaixonada que tem fim nas telas do cinema, que o amor é infinito e que a felicidade deve ser alcançada através de estados perfeitos com uma música no fundo. Entretanto, a vida é isso: tudo e nada. Esse desespero de tomar o peito que muitos sentem é só uma maneira pessoal de tentar acordar de um sonho impreciso. 

Paixão em 1, 2, 3. 

Um, dois, três.Acho que te vi outra vez 

Quando foi que a gente se desconheceu?

Você costumava me abraçar

Mas agora da meia volta, tentando me evitar

O que aconteceu? 

Com aquele sentimento eterno

E os planos sobre o mesmo teto

Agora me sinto como um feto

Sem o liquido materno

Pra me envolver.

Por favor, me diz!

Foi algo que eu fiz?

Talvez os versos livres 

Ou algo que eu não quis?

Talvez seja os meus sapatos bordados

Ou o meu gato corado

correndo de ti.

Ah, agora entendi.

Tu já não me amas

Tudo bem, pode partir.

Reencontros

– Por que essa cara, garota? 
– Eu vi a minha antiga casa. E foi diferente de todas as outras vezes, mas não sei como.

– A melhor forma de começar é tentar descrever. O que você sentiu? – O garoto da praça deixou de lado a papelada.

– Como se alguém tivesse dado um soco no meu estômago e uma facada no meu peito.

– O nome disso é coração partido. Existe um milhão de músicas sobre sobre isso, garota.

– É mais intenso quando acontece com você. – Apontei o rosto para cima e fechei os olhos. – Não consigo mais olhar pro céu sem sentir saudade. E tudo isso é minha culpa, eu fui embora. Eu desisti. 

– As vezes as pessoas nos partem apenas por terem nos deixado partir. 

– Isso não muda o fato de termos partido primeiro, em ambos os sentidos. 

– Sua casa foi feita sob-medida para você. Realmente achas que mais alguém conseguiria viver lá? Mais alguém vive aqui? – O garoto da praça apontou pra casinha no meu peito.

– Nunca. Só Ele. 

– Então, você sabe o que fazer.

– E se for engano meu, e se existir alguém morando lá agora? 

– Então é a vez dele de partir. – O garoto enxugou as lágrimas do meu rosto. 

Capítulo 1- O primeiro outono (página 1) 

Tudo começou em um dia de setembro de um ano não tão distante, no último ano escolar. Victor se levantou, fez a toalete matinal, e como de costume, parou em frente ao espelho do banheiro, tentou mais uma vez entender o seu cabelo rebelde, o qual nunca deixava de tramar novas revoluções, e novas “partes pra cima”. O cabelo loiro-morango caia em ondas bravas, que se acalmavam com o passar do dia. O Outono havia começado com todo o ânimo possível, o frio dançava uniformemente dentre a cidade e ele adorava isso, amava os casacos e os cachecóis, o ar especial que as folhas douradas proporcionavam. Sentindo-se em um filme, andava audacioso, imaginando várias cenas em cada passo que dava. 
Ele escolheu seu sobretudo preto, que caia mais ou menos na metade das coxas, e era acentuada pelos botões e fitas que se agarravam ao corpo magro e alto, juntamente com a sua blusa azul clara e uma gravata azul marinho estampada com um floral vermelho. Ao chegar no colégio, sua primeira parada foi a biblioteca, graças a sua melhor amiga Nora, ele começou a se interessar pelos livros antigos da biblioteca, aqueles que todos evitavam, esqueciam. Principalmente os de aventura e fantasia, mas ao contrário do que pode parecer, seu gosto de ler vem de um velho habito, que no entanto, tangia apenas os livros sobre filosofia, arte, história e romance. Seus dedos torneavam os livros seletivamente, como se o toque pudesse, de algum modo, deixar tudo mais intenso e verdadeiro, revelando uma parte mais íntima do livro. “Esse”Ele rapidamente fisgou o livro da prateleira. Os livros médios e com capa dura sempre chamaram mais a atenção dele, esse especialmente, por parecer levemente familiar. A capa era feita com um marrom desgastado, título em dourado, com uma fonte antiga e cheia de detalhes. “A Queda”. Ele navegou rapidamente por algumas páginas e depois colocou o livro contra o peito, apertando-o ali com cerca de outros cinco livros que ele levava enquanto ia direto ao balcão da biblioteca. Carimbou os livros e saiu em disparada pra aula de artes visuais, colocou alguns dos livros locados na mochila, e seguiu com alguns na mão. E lá estava Wallace Griffths, na porta da biblioteca.

– Hey, Fire boy, o que aconteceu com a Nora? –Wallace disse enquanto tirava os óculos escuros

– Resfriado. Inclusive, preciso levar a matéria de matemática pra ela hoje, você vem?

– Hoje não posso. Você não tem aula de Literatura agora?

– História.

– Uh. – Wallace parou em frente ao seu armário e pegou uma carta. – Caso você a veja hoje.

Victor encarou a carta por alguns segundos, e viu um “Nora McGregor” escrito a mão na parte de trás, e sem querer olhou o seu relógio. Ele ia se atrasar.

*Fire boy é o apelido que Wallace deu a Victor por causa do seu cabelo ruivo, ou melhor, loiro avermelhado*

– Existe um certo momento na vida que você acredita que a própria existência é um castigo. Tudo a sua volta começa a definhar lentamente pra um abismo confuso de tédio e rejeição. Você se olha no espelho e tudo o que consegue contemplar é a coisa mais intensa de lá: o pequeno buraquinho no seu peito. E com o passar dos anos ele vai crescendo e nem sempre nós sabemos o porquê. Por outro lado, é mais perceptível o motivo pelo qual ele para de crescer. É um processo gradual de crescimento individual quando se tem um buraquinho no peito… É diferente pra cada pessoa, mas pra mim foi mais nítido do que nunca. E antes, a minha vida que corria pra um abismo profundo de chatice e solidão, começou a fluir como um pequeno riachinho (inclusive, saindo um pouco pelos olhos), lavando todas as outras partes empoeiradas dentro de mim. Quando me dei conta, havia um pequeno planetinha em órbita passando pelo buraco do meu peito, lembrando que sempre vai existir um lugar pra mim. E eu agradeci por tudo que aconteceu até agora, por tudo que me trouxe até aqui, por tudo que fez abrir um buraquinho no meu peito, porque agora existe um mundo inteiro pra tampar ele. 

– Cala boca.